Carta Circular de Nosso Fundador, por ocasião dos 21 Anos de Nossa Fraternidade

Caríssimas irmãs, leigas(os), jovens, crianças, filhas(os) prediletas(os), voluntárias(os), amigos e benfeitores, vos escrevo a pedido de nossa querida Ir. Ágape e na condição de um irmão vosso que viu a Fraternidade nascer e crescer.

Se pudesse dar um tema para essa carta, em comemoração ao nosso vigésimo primeiro aniversário, eu daria o de ‘Contadoras e contadores de histórias’. O porquê desse tema as senhoras e os senhores entenderão à medida que forem lendo a carta. Posso antecipar, porém, que ele reflete o desejo de manter viva, no nosso presente, a memória da ação de Deus na nossa história e o olhar repleto de esperança no futuro.

O primeiro pensamento que me veio à cabeça, quando pensei por onde começar, foi de como o povo judeu contava, de geração em geração, as histórias sobre os feitos do Senhor; contes aos teus filhos e aos teus netos as maravilhas que fiz no Egito e os prodígios que operei no meio deles, e para que saibais que eu sou o Senhor (Ex 10,2).

Fiquei imaginando os mais jovens se sentando ao lado dos mais velhos para escutar sobre a relação de Deus com Israel através dos tempos. Contar as histórias do que o Senhor fez no meio do seu povo e através dele, era a maneira como fortaleciam a sua fé e a sua esperança.

Pela sua grandiosidade e importância, esses relatos se ocupavam, em primeiríssimo lugar, da ação poderosa e protetora de Deus em favor de seu povo, das suas advertências e da sua inesgotável misericórdia. Uma geração contará à outra a grandiosidade dos Teus feitos; eles anunciarão os Teus atos poderosos (Sl 144,4).

À luz da fogueira, os mais jovens escutavam as histórias de Deus com seus antepassados. Povo meu, escute o meu ensino; incline os ouvidos para o que eu tenho a dizer. O que ouvimos e aprendemos, o que nossos pais nos contaram, não os esconderemos dos nossos filhos; contaremos à próxima geração os louváveis feitos do Senhor, o seu poder e as maravilhas que fez (Sl 77 1-4). Atentamente, escutavam as narrativas sobre o dilúvio; sobre a ação de Deus na terra do Egito; de como dividiu o mar para que Israel pudesse passar; de como os guiou com a nuvem de dia e com a luz do fogo de noite; da pedra que jorrou água; de como os alimentou com o maná e com as aves caídas do céu… Mesmo não sendo sinceros e não guardando a Aliança, Ele foi misericordioso; perdoou-lhes as maldades e não os destruiu. Vez após vez conteve a sua ira, sem despertá-la totalmente (Sl 77, 38).

Mesmo que adentrassem à noite e vissem o raiar do novo dia, ainda assim, não seria suficiente para esgotar as histórias de um Deus apaixonado pelo seu povo. Nem toda uma vida seria suficiente.

Precisamos ser uma Comunidade que conta as histórias de Deus; que conta aquelas que estão no Livro Sagrado, nos séculos de existência da Igreja e nos 21 anos da nossa Fraternidade.

Mesmo sendo a nossa Fraternidade ainda tão nova podemos, humildemente, nos orgulhar pelos nossos vinte e um aninhos. Esse humilde orgulho deve nascer da certeza de que se o Senhor não estivesse ao nosso lado, não teríamos subsistido. Durante esses poucos, mas intensos anos, testemunhamos o querer de Deus diante das inúmeras inseguranças, o Seu amparo recorrente e o Seu consolo incessante. Deus tem sido a nossa atalaia nos tempos de alerta, o nosso baluarte nos tempos de combate; Ele é o esteio que nos sustenta, o farol que nos orienta. É a fornalha de amor que nos faz ser amor para com todos, sobretudo, para com àqueles que são desprovidos de amor. É a Comunidade Trina que nos inspira a sermos família para àqueles que não têm mais família.

Há de se supor que para falar de Deus é preciso falar com Ele, afinal, a boca fala do que o coração está cheio (Mt 12,34). É correto elevar a Deus nossos pedidos, o próprio Jesus afirmou isso, quando disse: Se me pedirdes alguma coisa em meu Nome, eu o farei (Jo 14,14), entretanto, não pode faltar o espaço para que Deus faça acontecer a Sua vontade. A oração como escuta de Deus, nos conforma, pouco a pouco, à Sua vontade

Se tratando de oração, posso testemunhar o quanto nossas irmãs são fiéis à vida de oração comunitária e pessoal. São desses encontros diários, repletos de simplicidade, plenos de afetividade, unidos à disciplina e à persistência que emanam todas as bênçãos e direcionamentos do bom Deus.

Num segundo lugar, esses relatos destacavam os homens e as mulheres que foram instrumentos da vontade de Deus. A fidelidade de Noé, em meio a descrença do seu povo; A sabedoria de José do Egito e o perdão dado aos seus irmãos; a coragem de Moisés diante do poder do faraó; a retidão de Daniel diante da corrompida Babilônia; a autoridade espiritual da profetiza Débora diante da opressão militar de Canaã; a confiança de Suzana diante da difamação que lhe fora feita; a resolutividade de Rute que não abandona Noemi num momento de luto e dor; a oração perseverante de Ana diante da atribulada situação que vivia (estéril, hostilizada pela sua rival); o amor de Ester pelo seu povo, que levou a colocar em perigo a própria vida, assim como Judite, etc.

Escutar a história do mover de Deus na vida dessas e tantas outras personagens, é ter um exemplo real de que é possível permanecer, até o fim, na vontade de Deus; de que o sofrimento unido à Cruz de Cristo é redentor; de que quem confia no Senhor não será abalado; de que quem procura, encontrará; de que quem perde, ganhará; de que a quem bate se abrirá, etc.

Precisamos contar a história do que Deus fez em nós e através de nós. De que dá sentido à vida se deixar ser usado como instrumentos da Sua vontade, de ver a nossa vida se tornando uma benção para os outros.

Podemos afirmar, com precisão, que ao longo desses vinte e um anos temos muitas histórias de amor e doação para contar. Foram tantos encontros com as mais diferentes pessoas: indígenas, africanas, europeias, americanas, asiáticas… nos mais diferentes lugares: nas regiões árticas do Canadá, nas aldeias rurais de Moçambique, na floresta amazônica no Brasil, nas áreas desérticas do Chile, no semiárido chaquenho no Paraguay, nos solos vulcânicos da América Central, nos pampas da Argentina, nos ‘llanos’ da Bolívia, nos aclives e declives de Toulon (França), às margens do Rio Mondego em Coimbra (Portugal), nos centros e nas periferias das grandes metrópoles, no litoral ou no campo… nas mais diferentes situações, sobretudo de pobreza existencial e social: pessoas em situação de rua, de drogadição, de abandono, de doença, de fome, de encarceramento, de prostituição; vítimas do tráfico, do racismo, da xenofobia, da intolerância religiosa…

Queremos manifestar ao bom Deus toda a nossa gratidão e reconhecimento pelo seu imenso amor para conosco e para com todas(os) aquelas(es) que nos antecederam na fé. Queremos agradecer a todas(os) aquelas(es) que nos ajudaram a fundar e a construir a nossa Fraternidade. É bom poder olhar para o lado e ver que os ‘operários da primeira hora’ continuam acreditando no ideal que abraçaram anos atrás.

Nos alegramos com o legado testemunhal que nossa Fraternidade vem construindo nessas mais de duas décadas.

Somos uma comunidade que vestiu o avental do serviço e que aprendeu que o mais simples serviço agrada a Deus: cozinhar, varrer, lavar, plantar, limpar, roçar, pintar, etc. Que tem aprendido que os fortes na fé, devem ajudar os que são fracos (Rm 15,1), que é preciso perdoar de coração o irmão (Mt 18,35), de que somos uma comunidade chamada a lavar os pés dos mais pobres e uns dos outros (Jo 13,14-15).

Para os que, por uma razão ou outra, se encontram entorpecidos, digo o que Jesus disse aos seus discípulos quando dormiram, em vez de orar com Ele: Levantai-vos! (Mc 14,42). Imagino que Jesus deva até ter-lhes gritado, pois a palavra está no imperativo. Desejo que esse grito de Jesus possa acordá-los da dormência em que se encontram e, levantando-se, possam colocar o avental e voltar a servir com um novo vigor.

Para os que se encontram longe do Senhor e não se acham merecedores do seu amor, escutem o que Ele vos diz pela boca do profeta Joel: …voltai para o Senhor, vosso Deus; Ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia (Jl 2,13). O Pai te espera de braços abertos, com roupas limpas, sandálias, anel e um afetuoso beijo para te dar, como fizera com o seu filho mais novo quando voltou depois de ter gasto a sua herança.

Estamos, ainda, de braços abertos para acolher os que desejam se unir a nós. Venham por se sentirem chamadas(os) pelo próprio Deus – Vinde também vós a minha vinha (Mt 20,4), pois essa será a única certeza que terão quando se sentirem decepcionados, incompreendidos e tiverem que passar pelo deserto espiritual.

Somos uma comunidade de filhas e filhos de Deus, mas, também, de filhas e filhos de humanos. Não somos seres angelicais e, muito menos, demoniais; somos gente de ‘carne e osso’. Como dissera há alguns anos atrás, repito; acertamos muito mais do que erramos, amamos muito mais do que magoamos, sanamos muito mais do que laceramos.

Termino desejando que todos nós sejamos contadoras e contadores dos feitos de Deus em nós e através de nós.
Recomendemo-nos:

Sagrado Coração de Jesus nós confiamos em vós.
Imaculado Coração de Maria intercedei por nós.

Irmanalmente,
Pe. Gilson Sobreiro, pjc


16 de outubro de 2022, Wamego, KS, Ano do Reino

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