Bíblia: Luz e Força na Vida da Comunidade

Como experiência vital na caminhada do cristão, ela está presente em todos os lugares: na liturgia, nos círculos bíblicos, nos grupos de reflexão, nos encontros de catequese, nas aulas de teologia, nas comunidades de base, nos grupos de louvor… onde há um fiel em oração, aí a Bíblia está presente, como grande sinal da comunicação amorosa de Deus com o seu povo. Revelação viva que ensina, exorta e oferece os caminhos da bênção, motivando cada batizado e batizada a construir uma história de comunhão com o projeto de vida e santidade, que a partir da Palavra somos convidados a acolher.

A Palavra de Deus tem duas dimensões irrenunciáveis: ela é luz e força. Luz enquanto nos traz consciência crítica da realidade, impedindo que a mentira e o erro assumam formas e cores na vida e no coração do povo. É luz que ajuda a questionar e rejeitar o que não pertence aos valores do Reino. Com um olho na Bíblia e o outro na realidade, temos maiores instrumentais para rejeitar modelos de uma cultura de morte, exclusão, desamor e individualismo, a partir das experiências colhidas pelo povo da Bíblia. Força enquanto ajuda a caminhar, mesmo quando a desesperança parece impor o seu discurso derrotista. É verdadeiramente forte, quem entende que o senhor “derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes” (Lc, 1,52), subvertendo a ordem do superficial, que nos esmaga.

A convicção profunda que sustenta essa luz e essa força na vida da Igreja, é que o texto sagrado é uma comunicação a serviço daqueles a quem o Senhor amou, na sua profunda radicalidade: Deus, por Jesus Cristo, na ação do Espírito Santo, se oferece para a salvação de todos os que se abrem a tal dom. Ela nos leva a um melhor conhecimento da obra e da pessoa do Salvador e enquanto Palavra de Deus e “plenitude da revelação divina” (Verbum Domini, n. 73), manifesta o mistério e a vontade do Pai, a quem não se conhece senão por seu Filho, Palavra feita carne. A luz e a força dessa realidade redentora de Jesus “Crucificado-Ressuscitado”, é modelo central do seguimento e da missão para cada um que possui na Palavra o combustível que movimenta as estruturas da fé.

A Palavra de Deus é a presença de Jesus na Igreja, que por sua vez alimenta-se cotidianamente da Bíblia para continuar sua caminhada, “alegres por causa da esperança” (Rm, 12,12). Amparado nessa intimidade, não podemos descuidar da nossa formação e espiritualidade bíblica. É uma urgência na vida pastoral, assumir a dimensão bíblico catequética como a diretriz que impulsiona o ritmo das paróquias. O Concílio Vaticano II apresenta a ligação entre Bíblia, espiritualidade e vida como uma das mais importantes exigências da Igreja hoje: “É necessário que a religião cristã seja nutrida e dirigida pela sagrada Escritura” (Cf.: Dei Verbum nº 21 a 26). “A ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo” (S. Jerônimo). Por isso, nossa ação missionária necessita desse contato constante e orante com a Bíblia, para ler a realidade à luz da Palavra.

Ela não pode ser acolhida como um manual de piedade. Empobrecemos seu valor e altíssima dignidade quando nos dirigimos a ela somente buscando mensagens de auto ajuda, ou uma reflexão esporádica para melhorar o ânimo do dia. Como Palavra de salvação, a Bíblia nos inspira santidade e mudança de vida. Não se trata de ler como simples livro de decretos e regras. Ela carrega e atualiza a teologia e a história do povo de Deus que também fazemos parte, bem como a caminhada concreta dos “eleitos”, em busca de vida plena, na aliança que Jesus realizou. Deixar-se iluminar pela Palavra de Deus, pressupõe ultrapassar a nossa cultura individualista e compreender a lógica de um “Amor Maior” que se revelou em comunidade, (pois a Bíblia é fruto da experiência comunitária, é a fé daqueles que na comunidade vivenciaram o seu verdadeiro sentido) aceitando fortalecer os vínculos com esse projeto, através da Igreja.

É fato que a nossa pastoral precisa assumir dimensões bíblicas mais efetivas. Não somente lida, ela precisa ser proclamada e atualizada. Sua interpretação também precisa realçar elementos ecumênicos e jamais negligenciar uma atenção profética aos empobrecidos. Na Palavra deve estar a alma e o coração da missão evangelizadora e de onde brota uma autêntica conversão à solidariedade. Motivados pela mística do mês de setembro, “mês da bíblia”, esforcemo-nos para que a Palavra divina na vida da Igreja seja fonte de constante renovação e cada vez mais o coração de toda atividade eclesial.

Pe. Danilo Pena

Pároco da Paróquia Sagrado Coração de Jesus

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