A Direção Espiritual

Para melhor entendermos o que é a direção espiritual, vamos buscar por meio de duas figuras bíblicas, compreender o sentido e a dimensão desse caminho de encontro e aprofundamento com a pessoa de Jesus.

No evangelho de João 4, 5 – 30 vemos o relato do diálogo entre Jesus e Photina, (Na tradição da Igreja do Oriente esse é o nome da mulher samaritana, que se tornou mártir no primeiro século D.C.). Durante o diálogo entre Jesus e Photina, vemos que algo começa a surgir em seu coração, um desejo de conhecimento D’aquele que lhe falava e consequentemente um encontro com a verdade a que ela se encontrava. A partir desse encontro, Photina sai às ruas de Samaria a anunciar “O Grande Encontro” que teve com a pessoa de Jesus. No livro dos Atos do Apóstolos 9, 1 – 18 vemos o relato da conversão de São Paulo, aquele que outrora era perseguidor da Igreja nascente, após seu encontro com a pessoa de Jesus, vai em busca daquele a quem o Senhor confiou para ajudá-lo nessa nova caminhada de conversão.

Em ambos relatos, vemos que é a partir de um encontro profundo com a pessoa de Jesus, um encontro com a verdade a qual nos encontramos, e que somos convidados a uma mudança contínua. Photina sentia seu peito arder pela verdade que lhe era anunciada, e ao olhar para dentro de si, aceitou sua condição de pecado, se arrependeu e buscou uma vida nova a partir daquele encontro.

Saulo que tornou-se Paulo, obediente a voz do Mestre, vai e busca os conselhos de Ananias, um servo fiel de nosso Senhor, que escutando a sua voz, encontra-se com Saulo e vê o processo do “abrir dos olhos” daquele que um dia perseguiu os cristãos.

E porque Jesus após ter falado diretamente com Paulo, não o orientou em tudo o que ele necessitava fazer? A resposta é simples! Após um encontro verdadeiro com a pessoa de Jesus, todos entramos num processo de autoconhecimento, esse processo nos leva a um desejo mais profundo de uma vida em Deus e o conhecimento das verdades eternas. Paulo (e cada um de nós) precisava (precisamos) ser acompanhado (s) nessa nova jornada que começa, e por essa razão, o próprio Jesus o direciona a Ananias. Ananias por sua vez, um homem de oração, prontamente obedece a voz de Jesus que também revela a ele como orientar Paulo.

Segundo o Catecismo da Igreja Católica # 2690, “O Espírito Santo concede a certos fiéis dons de sabedoria, de fé e de discernimento, em vista deste bem comum que é a oração (direção espiritual). Aqueles e aquelas que de tais dons são dotados, são verdadeiros ministros da tradição viva da oração:

É por isso que a alma que quer progredir na perfeição deve, segundo o conselho de São João da Cruz, olhar em que mãos se põe, porque, qual o mestre, tal será o discípulo, e tal pai, tal filho. E ainda: o guia, além de sábio e discreto, é mister que seja experimentado […]. Se o guia espiritual não tem experiência do que é puro e verdadeiro espírito, não atinará a encaminhar nele, quando Deus lho dá, nem ainda o poderia entender”

A direção espiritual portanto é o instrumento que Deus nos dá, para aprofundarmos nossa relação de intimidade com Ele e nesse novo caminho somos convidados a uma mudança de pensamento, do grego μετάνοια – metanoia. Para isso é fundamental que este por sua vez seja uma pessoa experimentada na prática da oração e a escuta dócil à Palavra de Deus para que sendo esse instrumento nos auxilie na busca por um caminho de santidade real e verdadeiro.

Foi através deste grande instrumento dado por Deus, que os grandes santos e doutores da nossa tradição católica, foram formados. Grandes autores da espiritualidade como Teresa de Ávila, João da Cruz, Tomás de Aquino, Francisco de Sales entre outros, são unânimes em reconhecer a grandeza de tal instrumento de crescimento e precisão na nossa busca pela santidade.

“Deus gosta tanto que o homem se submeta à direção doutro homem que não quer de maneira nenhuma ver-nos dar pleno crédito às verdades sobrenaturais que Ele próprio comunica, antes de elas terem passado pelo canal duma boca humana.” – São João da Cruz (citado por Tanquerey. Compêndio de Teologia Ascética e Mística, Cap. V, Art. II)

Ir. Milagres da Pequena Via. PJC

Artigo anteriorSemana Santa: Um Itinerário para a santificação
Próximo artigoSacramento da Penitência

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui